terça-feira, 20 de setembro de 2011

Uma noite como morador de rua.



               Irei dividir com vocês uma experiência muito legal em minha vida, a qual eu pude dividir com meus amigos, Paulo Gama e Rafael Rodrigues, que moram comigo aqui na Academia de Kung Fu. Infelizmente não tenho fotos dessa aventura, pois seria meio incoerente usar uma maquina e também porque criei um código moral contra ficar batendo foto das coisas, espero que no futuro consigam retirar as fotos da memoria fotográfica, ai eu colocarei aqui. Enquanto não conseguem, tentarei fazer vocês verem a situação.
              A semente da aventura eu acredito que tenha começado quando fomos a praia com um amigo nosso chamado (esqueci o nome), que nos contou que um dia, a muito tempo atrás, fugiu de casa e passou uma semana na rua, e nos contou que era muito complexo, muitas vezes cruel, mas que ao final ele se sentiu muito forte e muito livre. Acho que ele se sentiu assim pois teve que ser forte e percebeu que não ter casa não é o fim. Ele plantou a semente, já em outro dia o Rafa me disse que uma vez estava tão difícil ficar na academia, devido a bagunça, que ele quase foi dormir na rua. Então eu contei a ele que já dormi muito ao léu, nas vezes em que viajei pedindo carona, e que não achei nada assustador. Então as mentes se uniram e ele disse “vamos ver com o Paulo se ele esta afim de termos uma noite de mendicância?” isso eu acho que foi em uma terça, e só poderíamos fazer a aventura na sexta, pois no sábado o Paulo não teria que dar aula. Não falei, mas o Paulo topou, ele é adepto destas coisas, a religião dele é baseada no livro de Jhon Kracauer, que foi o livro que deu origem ao filme Na Natureza Selvagem, então vocês podem imaginar né. Enfim ele se empolgou e foi o resto da semana agente falando de como seria, mesmo sem saber. 
                 Na sexta, depois da aula o pessoal começou a se arrumar, o que eu não entendi, e disse “se você quer ser mendigo você deve se desarrumar não se arrumar”. Eu já estava pronto pois naquela semana não tinha quase nada para fazer e ficava em casa como mendigo, quando saia na rua era bem fácil de achar que eu era um. Por fim o pessoal pegou umas roupas velhas e rasgaram ainda mais, sujaram no chão, o Paulo escondeu a cabeleira em uma toca e o Rafael passou café no rosto, eu bem seriamente só coloquei uma camisa já rasgada e uma calça toda suja de grude, que  eu uso para colar cartaz de Gnosis em postes. Meu cabelo e minha cara já eram de mendigo, foi só sair .  O Paulo foi engraçado, todo preocupado se estava parecendo mendigo, mais um pouco ele iria passar perfume de ovo podre.
                Saímos era umas  20:00 horas, foi engraçado porque os vizinhos que moram aqui em cima estavam na frente do prédio, eu estava com minha manta verde embaixo do braço, e agente estava muito desarrumado, mendigos de verdade, não dissemos nada. Acredito que eles não devem ter entendido bulhufas, mas também não falaram nada. Saímos e fizemos um circuito mental, não saberíamos o que iriamos encontrar e fazer, mas a  ideia foi agente cruzar o alecrim, que é um bairro pancadinha aqui de natal. Mas agente estava tranquilo, pois a primeira grande experiência foi psicológica, agente não precisava ter medo de nada, pois as pessoas tinham medo de nós, e digo a vocês as pessoas realmente associam pobreza a bandidagem. Esqueci de contar uma coisa, no começo, logo quando saímos, percebemos que não estávamos parecendo mendigos, não pelos trajes, mas porque estávamos sorrindo, se você vai ver quase todo mendigo teu um semblante sofrido, ele não anda pela rua sorrindo e muito menos em grupo, quase sempre é solitário. Então para nos integrarmos mais com a idéia começamos a falar pouco e paramos de rir, o que foi difícil, pois o nervosismo deixou todos os três muito engraçados. Mas por fim conseguimos, também começamos a mexer em alguns sacos de lixo em caçambas, tudo em nome da integração com a mendicância.
                 O primeiro evento legal foi cruzar com o pessoal que entrega comida aos mendigos, mas ficamos muito ressabiados e não paramos , não sabíamos o que iriam falar, pois todo mendigo tem uma historia para ele estar ali, e nós não podíamos dizer “a não seu moço, nós moramos ali na academia de Kung Fu Tao Kuan, estamos fazendo isso sei lá por que”. Até lembrei de uma piada que contei quando estávamos saindo, falei “porque agente não dorme aqui na frente da academia, aqui já é rua e agente pode até ver um filme no meu pc” tiveram outra piadas tipo “acho que vou levar meu cartão “. Mas voltando a historia, agente continuou a andar, decidirmos ir até a Ribeira, no caminho encontramos uns burros (animais, burro no sentido pejorativo só tinha agente ahah), e fomos no gramado com eles deitamos, fizemos carinho, as pessoas que passavam achavam estranho. 
             No caminho eu encontrei 5 reais e percebi que eu era o mendigo de sorte (hahaha). Porem, todavia e entretanto, entendo que qualquer coisa que eu ache e pegue é roubo pois não é meu, independente do fato de não ser de ninguém. Tudo que vier depois disso é justificativané?!). Não peguei então o Paulo foi e pegou, e eu falei que era roubo, ele não falou nada. Seguimos nossa caminhada, que era meio longa e agora vêm outra coisa legal que ocorreu. Encontramos uma caixa com coco, sem liquido, só o coco em si, sem a agua. Mas qualquer um sabe que dá para comer o coco, é só abrir e raspar que é bem mole. Então o Paulo e o Rafael como dois bárbaros começaram a quebrar ele na quina da sarjeta, abri-los e comer. Eu não gosto de coco então não comi (mendigo chique né?!). Enquanto eles pareciam o Naufrago eu fui fazer um ato simbólico, achei um corretivo no lixo e escrevi na calçado os nossos nomes de mendigos- Cabelo (Paulo), Zoio (Rafael) Filipe (grilo) escrevi a data também. Esta marca eu deixei perto da catedral, na rua em frente a ela, a rua da Igreja Presbiteriana Independente. Acho que deixarei o local no mapa depois do texto.
                   Após isto nós seguimos, chegamos a catedral aonde ficam muitos mendigos passamos por uma família e o Paulo jogou os cinco reais para eles sem dizer nada, acho que não devem ter entendido. Por fim nos aproximamos dos mendigos e percebemos que estavam entregando sopa, era um pessoal daquele igreja O Reino de Deus,  desta vez não fugimos, mas eu e o Rafa ficamos muito quietos, só esperamos eles nos entregarem a sopa e o pão. Ficamos um pouco ali, o pessoal da igreja conversava com os mendigos, a maioria deitado, descobri que mendigo dorme muito sedo. Bem na real a maioria nem é mendigo eles dormem sedo e acordam sedo e vão trabalhar cuidando de carro, a maioria trabalha com estas coisas mais desvalorizada, o que para mim foi um grande choque. Eles são pessoas normais, e são totalmente esquecidas pela imensa maioria da sociedade, como se fosse ratos. Vi muitos poucos bêbados, e também não condeno, pois para aguentar uma vida dessa não é fácil e será que apenas nós temos direito a fugir da realidade? E olha que nossa realidade não é como a deles. E estes grandes seres que moram na rua são na verdade guerreiros, ainda mais aqueles que não se entregam ao roubo e as drogas, e até que ponto temos direito de cobrar decência daqueles que roubam e usam droga?
                   Mas vou continuar. Saímos dali e terminamos de comer a sopa atrás da catedral, vimos a policia ir cobrar sua pizza da noite em uma pizzaria e depois saímos em direção a praia, descemos o morro por uma escadaria muito estreita e depois por uma ruela, por fim estávamos na praia. Ai foi tudo como sempre né nada de mais, as ondas continuavam vindo e indo como sempre, só muita gente nos restaurantes olhando e passando de carrão e olhando. Demos uma deitada em um gramado e seguimos novamente em direção ao centro agora já afim de procurar um local para dormir. Esta parte foi complexa e muito engraçada, pois nenhum lugar estava bom para o Paulo, começamos a pegar papelão e madeira e eu perguntei em tom de ironia “você vai construir uma casa?” ele rio e disse que era para a fogueira, paramos em muitos lugares, mas em nenhum ficamos. Então resolvemos dar uma olhada em um prédio abandonado, atrás do shopping mydwai mall ( ou mi dei mal como o pessoal brinca). Foi um pouco complexo de achar, mas achamos e foi muitoo louco e devo dizer a parte mais inconsequente da aventura, apesar do Paulo e Rafa saberem lutar Kung Fu e Box Chinês, ninguém é de ferro, apenas o exterminador no futuro. Mas entramos muito cabreiros e atentos, mas entramos. Tinha muito lixo no térreo, e um cheiro ruim, subimos o primeiro, estava tudo muito escuro, o Paulo foi à frente, não sabíamos o que iriamos encontrar, mas em um prédio abandonado agente nunca sabe. No segundo andar pensamos em ficar, mas eu Sagitário com ascendência em sagitário queria subir até o ultimo, detalhe eram 11 andares. Por fim resolvemos subir mais 2, para não ficarmos na altura de visão das casa , mas também para não subirmos tanto, no outro dia o Paulo me contou que ele não quis subir, pois se alguém poderia “morar” ali e quando chegasse e nos visse nos obrigasse a pular (Acho que ele vê muito firme de ação hahha), esqueci de contar mas no terceiro andar tinha gente, só demos uma olhada e vimos um fogão feito de tijolos, mas enfim não sei se do quarto andar agente já não morria . pegamos encontramos o melhor cômodo, era um apê. grande, dava para escolher, mas resolvemos ficar tudo junto (ahahah). Cada um pegou o papelão que iria usar para dormir em cima, os outros nos cortamos e acendemos uma fogueira, tínhamos também algumas madeiras, foi engraçadíssimo, fez a maior fumaceira, parecia gelo seco. Podemos ver que as paredes estavam realmente todas pixadas, haviam algumas roupas no chão umas revistas, uns materiais escolares, depois pensei que o pessoal deve assaltar e levar as coisas para ali , para ver se encontram dinheiro ou algo de valor, só suposição. Tentamos dormir, mas cochilávamos e acordávamos, do nada apareceu um cara com uma faca querendo saber o que era, então respondemos que estávamos dormindo e ele responde “achei que era malandragem” e foi embora, o que ele quis dizer com isso eu não sei. Ele disse que morava no andar de cima e que qualquer coisa era só gritar. Com e tempo o sono bateu e o pessoal dormiu, até ronca roncaram, eu dei pequenas cochiladas, sentei e fui meditar sobre a noite. Quando vi já era cinco e o sol iria nascer, vi um dos nasceres do sol mais lindo da minha vida, a vista era muito boa. O pessoal demorou um pouco mais e levantaram lá pelas seis e meia, não dá para saber pois não tínhamos relógio.
                Depois que acordamos subimos até o décimo primeiro andar e contemplamos a vista, mas com certeza a beleza de lá de cima não superou a beleza que foi a experiência, que além de muito bela nos ensinou muito. Saímos daquela contradição que era um prédio abandonado com tanta gente sem casa e voltamos para a academia.
                No caminho de volta pensamos em como é terrível a vida destes seres, pois nós fizemos isso por uma noite mas pensamos como deve ser complexo para aqueles que não sabem quando e se isso vai acabar. Tentem imaginar o que é não ter um casa, um banheiro, não ter nem armário, quanto menos roupas, e mesmo assim ter que lutar todo dia para continuar vivos, ainda tendo que respeitar leis e princípios, criados por pessoas que estão muito longe desta outra realidade.
                 Agora que já escrevi o texto, acho que errei, pois a melhor palavra para defini-los não é mendigo, mas morador de rua, peço desculpa aos moradores de rua, mesmo sabendo que eles não leram este blog e isso ferve meu sangue. 


             
(desculpem os erros de pontuação, estou procurando me aperfeiçoar)

7 comentários:

  1. Eu ri aqui Na hra q o cara entro com a faca na mão acordando vocs uHAUHha Cena de filme hahaha'

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Cara, eu diria uma bela aventura, com certeza se passaram coisas nas cabeças de vcs que nem se deve imaginar, isso ai e pra muitos que desprezam ou subjulgam essas pessoas, mas eles sao gente como a gente, a diferença e que eles nao tem nada e sobrevivem como podem. Parabens.

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  4. Obrigado por expreçar sua opnião Osmar. Realmente eles não tem nada e até a esperança lhes é roubada, pois assim como não tem eles tambem não tem perspectiva de ter. Entretanto estão inceridos em uma sociedade que diz que para ser feliz é preciso ter.

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  5. Filipe.. Um dos caras mais excêntricos que já conheci... Só vc mesmo pra se aventurar dessa forma! Viajei lendo esse post! hahaha.. Muito foda! Parabéns pra vcs que se aventuraram pra contar a realidade dessas pessoas que como vc disse, são "guerreiras", que matam um leão todo dia pra poder sobreviver...

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  6. Opa!!!!!!! Japa, cara saudades de vocês, valeu pelo comentário e manda um abração para o Elvis ahhahah Abração.

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